Por Tony Santos*

*As manifestações publicadas neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião do Blog do Gomes e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.

Faz parte da tradição política brasileira o grupo que ocupa o poder trabalhar para nele se perpetuar. É o que os críticos chamam de projeto de poder. Porém, uma observação precisa ser feita sobre essa questão, pois, mesmo estando fora do poder, seja qual for a esfera, a oposição também tem o seu projeto de poder. É daí que nascem as expressões “o poder pelo poder” e “a oposição pela oposição”, gerando uma permanente disputa onde o palanque está sempre posto, os debates, geralmente fúteis, são intermináveis, fazendo os políticos e agentes administrativos aparecem mais que as instituições, favorecendo a uma política personalista, onde a figura do Estado fica distorcida e práticas imorais e até mesmo ilegais são expedientes adotados como fundamentais para aqueles que querem continuar mandando quanto para aqueles que querem passar ou voltar a mandar.

Infelizmente os líderes políticos brasileiros, independente se são situação ou não, alimentam essa cultura de fazer da política uma atividade de carreira lucrativa e não uma forma de ser útil por certo tempo ao seu povo, à sua cidade, ao seu estado e ao seu país. Claro que existem as exceções, mas estas quase sempre não são protagonistas do processo exatamente por imporem limites éticos, morais e legais à sua militância política, o que já os deixa em desvantagem em relação àqueles que dizem ser republicanos, mas o são apenas superficialmente.

O princípio republicano que a grande maioria dos nossos políticos não consegue satisfazer é o de colocar o Estado acima de qualquer pessoa, líder carismático, grupo político, afastando-se do populismo, do assistencialismo, da propaganda excessiva das ações públicas, como forma de reforçar a imagem de um líder ou grupo político. A publicidade institucional dos governos parecem mais peças publicitárias de venda de automóveis, consumo de refrigerante e cerveja, agências de viagem, onde surrealismo e expressionismo se misturam transportando o cidadão a um mundo mágico onde tudo funciona maravilhosamente. A mídia institucional não visa informar ao cidadão, mas manipulá-lo, a fim de que desvie sua atenção do mundo real e tenha a sensação de que já está usufruindo de um bem ou serviço público que sequer existe ainda.

Tal postura é mais adotada por quem controla o poder, pois está à sua disposição o aparelho estatal. Porém a oposição também não deixa de contribuir para que a luta pelo poder assuma um primeiro plano em detrimento dos interesses do Estado. A oposição, muitas das vezes, é mesquinha, retrógrada, ataca o adversário quando este toma medidas necessárias, porém impopulares e denuncia as deficiências administrativas sem levar em conta o contexto geral do país, tentando manipular os cidadãos a acreditarem que aquela situação é resultado de uma ação individual de quem está no poder e não resultado de circunstâncias que fogem ao seu domínio.

 Se o objetivo da situação é fazer o cidadão acreditar que tudo está plenamente perfeito, o da oposição é fazê-lo acreditar que tudo está plenamente ruim, apresentando-se como os únicos capazes de mudar a situação. Ou seja, tanto oposição e situação, no Brasil, falam e agem, intencionalmente, de forma ignorante para os ignorantes, o que resulta em sofismas, apelos emocionais e populistas, aproximando a atividade política e administrativa no Brasil dos interesses de pessoas e grupos em detrimento do interesse de construção de um projeto de Estado, pois ambas (situação e oposição), mesmo em situações opostas, militam com um único objetivo: estabelecer ou fazer durar o quanto for possível um projeto de poder.

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Por Tony Santos*

*As manifestações publicadas neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião do Blog do Gomes e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.

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Os protestos que começaram em São Paulo  e ganharam grande parte do território nacional mostram o quanto ainda somos colonizados pela região sulista. Vivemos uma das piores secas dos últimos oitenta anos e não vimos ninguém, por essas bandas, ir às ruas protestar contra a omissão das esferas governamentais com o drama de produtores e criadores que perderam praticamente tudo que possuíam.

A economia nordestina, em especial o semiárido, ficou aos frangalhos, muitas famílias sequer tinham água para beber. Mas o aumento de 20 centavos nas passagens do transporte coletivo parece ter sensibilizado mais o nordestino do que o cenário degradante e humilhante que passou e ainda passa o Nordeste em virtude da longa estiagem.

Parece que nossos formadores de opinião estão mais antenados com os problemas do sul do país do que com a realidade na qual estão inseridos. Duvido que se, por aqui, tivéssemos feito manifestações contra a negligência governamental em relação à estiagem, se algum paulistano ou carioca tivesse ido às ruas engrossar as fileiras dos flagelados da seca. E sabe por que não sairiam às ruas em defesa do nordeste torrado pela seca impiedosa?  Porque, para eles, é descabido serem influenciados por nós, nordestinos. Mas, para nós, ser influenciados por eles é moda, é chic, é cultural.

Se um dia acontecer o imponderável de São Paulo, onde há uma esmagadora presença de nordestinos que sabem muito bem os dramas vivido nessa região (muitos deles daqui saíram para não morrer de fome)  resolver tomar as ruas em defesa dos flagelados da seca, quem sabe nós não sairemos também.

Não resta dúvida que as massas que tomaram as ruas no Nordeste e outras regiões menos favorecidas do Brasil, fizeram isso mais por influência da mídia sulista do que propriamente por uma consciência de que algo não vai bem no Brasil. Faça-se uma pesquisa no nordeste e veremos que  Dilma continua, por aqui, inabalável na sua popularidade.

E sabe por que isso acontece? Porque, para nós, o que mais interessa é o Bolsa Família e copiar o sul do País. Quem sabe um dia despertamos e deixamos para trás essa vida de imitadores do  eixo Rio São Paulo, inclusive no futebol. Ou será que vida de colonizado é assim mesmo?