Por Manoel José Telles Neto*

*As manifestações publicadas neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião do Blog do Gomes e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.

 

 

 

são_joãoFoi com grande alegria que observei, este ano, a considerável proliferação de fogueiras na cidade de Ribeira do Pombal, em número bem maior que em anos anteriores.

A exemplo das passeatas que inundaram o país, em protesto pela ausência ou presença maléfica dos poderes constituídos, o povo foi às ruas, ou melhor, ficou em casa, explico:

Como a Prefeitura Municipal ao longo de algumas gestões se omitiu em realizar festas juninas na cidade, pelos mais diversos motivos, a população tomou para si a responsabilidade de manter a tradição e o fez no âmbito de seus domínios, o lar. E note-se que isto foi feito de forma espontânea e individual, sem qualquer processo de massificação gerado pela mídia, sem protestos e sim com prazer.

O resultado foi um espetáculo de preservação de identidade cultural,  originado, como deveria ser toda manifestação de cultura, da população, de pópulo, povo.

As festas juninas são manifestações culturais muito antigas, para serem simplesmente esquecidas, e o povo entendeu isto. Segundo Mariza Lira, “A primeira festa junina realizada no Brasil aconteceu no ano de 1603, em comemoração a São João, pelo Frade Vicente do Salvador que se referiu aos nativos que aqui se encontravam da seguinte forma: “os índios acudiam a todos os festejos dos portugueses com muita vontade, porque era muito amigo da novidade, como no dia de São João Batista por causa das fogueiras e capelas”.

Vejam só, 1603, e se formos mais a fundo encontraremos em um passado mais distante a origem desta manifestação cultural. Senão vejamos: Segundo Cintia Cristina da Silva “As festas juninas homenageiam três santos católicos: Santo Antônio (no dia 13 de junho), São João Batista (dia 24) e São Pedro (dia 29). No entanto, a origem das comemorações nessa época do ano é anterior à era cristã. No hemisfério norte, várias celebrações pagãs aconteciam durante o solstício de verão. Essa importante data astronômica marca o dia mais longo e a noite mais curta do ano, o que ocorre nos dias 21 ou 22 de junho no hemisfério norte. Diversos povos da Antiguidade, como os celtas e os egípcios, aproveitavam a ocasião para organizar rituais em que pediam fartura nas colheitas”. Segundo a Antropóloga da PUC-SP Lucia Helena Rangel “Na Europa, os cultos à fertilidade em junho foram reproduzidos até por volta do século 10. Como a igreja não conseguia combatê-los decidiu cristianizá-los, instituindo dias de homenagens aos três santos no mesmo mês”,

Ainda segundo Cíntia Cristina da Silva, “O curioso é que os índios que habitavam o Brasil antes da chegada dos portugueses também faziam importantes rituais durante o mês de junho. Apesar de essa época marcar o início do inverno por aqui, eles tinham várias celebrações ligadas à agricultura, com cantos, danças e muita comida. Com a chegada dos jesuítas portugueses, os costumes indígenas e o caráter religioso dos festejos juninos se fundiram. É por isso que as festas tanto celebram santos católicos como oferecem uma variedade de pratos feitos com alimentos típicos dos nativos. Já a valorização da vida caipira nessas comemorações reflete a organização da sociedade brasileira até meados do século 20, quando 70% da população vivia no campo. Hoje, as grandes festas juninas se concentram no Nordeste, com destaque para as cidades de Caruaru (PE) e Campina Grande (PB).

Dança à francesa

 A quadrilha tem origem francesa, nas contradanças de salão do século 17. Em pares, os dançarinos faziam uma sequencia coreografada de movimentos alegres. O estilo chegou ao Brasil no século 19, trazido pelos nobres portugueses, e foi sendo adaptado até fazer sucesso nas festas juninas.

Recado pela fogueira

 A fogueira já estava presente nas celebrações juninas feitas por pagãos e indígenas, mas também ganhou uma explicação cristã: Santa Isabel (mãe de São João Batista) disse à Virgem Maria (mãe de Jesus) que quando São João nascesse acenderia uma fogueira para avisá-la. Maria viu as chamas de longe e foi visitar a criança recém-nascida

Sons regionais

 As músicas juninas variam de uma região para outra. No Nordeste, as composições do sanfoneiro pernambucano Luiz Gonzaga são as mais famosas. Já no Sudeste, compositores como João de Barro e Adalberto Ribeiro (“Capelinha de Melão”) e Lamartine Babo (“Isto é lá com Santo Antônio”) fazem sucesso em volta da fogueira

Abençoadas simpatias

 Os três santos homenageados em junho – Santo Antônio, São João Batista e São Pedro – inspiram não só novenas e rezas, como também várias simpatias. Acredita-se, por exemplo, que os balões levam pedidos para São João. Mas Santo Antônio é o mais requisitado, por seu “poder” de casar moças solteiras

Comilança nativa

A comida típica das festas é quase toda à base de grãos e raízes que nossos índios cultivavam, como milho, amendoim, batata-doce e mandioca. A colonização portuguesa adicionou novos ingredientes e hoje o cardápio ideal tem milho verde, bolo de fubá, pé-de-moleque, quentão, pipoca e outras gostosuras”

Muitas lições poderemos tirar desta iniciativa, como de todas as outras emanadas da vontade popular, mas em nossa opinião, principalmente o poder público pode e deve, a partir do próximo ano, potencializar estas iniciativas, incentivando todas as manifestações espontâneas a exemplo das quadrilhas da Rua da Ribeira, os cortejos de forró e todas as outras relativas às festas juninas que ocorrem na cidade. Teríamos um São João e São Pedro tradicionais e diferenciados das cidades vizinhas com seus palcos monumentais e bandas eletrônicas do “forró universitário” que se nada tem de universitário, tem muito menos de forró.

Acreditamos que existe um público imenso que seria atraído por este tipo de comemoração e com um poder aquisitivo maior que os frequentadores daquelas festas que andam ocorrendo nos dias de hoje, trazendo em médio prazo um benefício para a economia do município, a exemplo destas, a um custo bem inferior.

Imaginemos como exemplo, e só como exemplo, se nas noites das festas juninas fossem espalhados pela cidade vinte ou trinta grupos de músicos de forró (Sanfona, triângulo e zabumba), tocando pelas ruas e parando em cada fogueira das residências que os quisessem acolher.

Mas vamos parar por aqui, longe de nós a pretensão de ensinar o vigário a rezar missa, felizmente temos um Secretário de Cultura especialmente comprometido com as manifestações de cultura popular e que em conversa conosco demonstrou ter tido a mesma percepção com o aumento das manifestações espontâneas ocorridas este ano e certamente não vai deixar que isto se perca, por se tratar de um grande patrimônio imaterial do município, ainda que não reconhecido.

E no mais, VIVA SÃO JOÃO.