Por Gildson Gomes dos Santos*

*As manifestações publicadas neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião do Blog do Gomes e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.

(Apresentação do ensaio)

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Por que a violência aumenta, se existe polícia armada? Por que a polícia violenta, se ela existe para proteger? Por que impomos a liberdade, se a autonomia é sua condição? Por que exigimos a democracia,  se ela se apoia na liberdade? Por que o controle, se a liberdade é um direito fundamental? Por que a competição, se a convivência pode se dar na colaboração? Por que cobramos obediência ao saber, se o pensamento é livre? Por que a liberdade é um direito, se a todo direito corresponde uma obrigação? Afinal de contas, por que necessitamos de direitos?

Com efeito, a simplicidade destas perguntas é enganosa, pois nelas se esconde a “caixa-preta” cultural do Ocidente, cuja decodificação a nova ciência vem tentando realizar, diuturnamente, desde a última década do século XX. Dela já foram extraídos importantes dados, que remontam à origem e evolução de uma rede de conversações que existe há mais de 7.000 anos, e se manifesta de várias maneiras, sob o rótulo genérico de cultura patriarcal/matriarcal europeia, cujo foco se concentra na apropriação. No assenhoreamento do que for suscetível de domínio (apoderamento): da matéria, do dinheiro, do conhecimento, do espírito, da verdade, da razão, da alma, do corpo, da dignidade alheia.

Hoje, esse apego à apropriação aparece nas conversas cotidianas, com bastante nitidez, quando alguém diz: “Você vale o que tem!”. Se tem conhecimento, vale. Se tem dinheiro, vale. Se tem ações na bolsa, vale. Se tem poder, vale. Se tem direito, vale. Se não tem, então… Com certeza,  também o direito aparece, nessa trama cultural, como objeto e mecanismo viabilizador da apropriação. Alguém tem ou não tem certo direito, que não exprime nada mais que um vínculo inventado para ligar o proprietário ao ente apropriado.  É assim que temos direito: à vida, ao nome, ao próprio corpo, à cidadania, ao conhecimento, à honra, à dignidade, à liberdade (de opinião, de consciência, de expressão, de ir e vir), ao patrimônio, enfim.

Nada obstante, tudo indica que, se houvesse limite à concupiscência pratriarcalista, a vida estruturada dessa forma poderia ser maravilhosa. O problema é que, nesse modo de viver e conviver, quem já possui tende a querer mais e mais; sendo forçado, portanto, a avançar no espaço alheio, causando prejuízo ao outro. A volúpia imperialista é, de fato, um sintomático exemplo dessa tendência. Na lógica do apoderamento, só não acumula quem não tem oportunidade. E quem não pode fazê-lo, diretamente, procura dar um jeito de ter o controle indireto sobre o patrimônio alheio, se cacife tiver para tanto. No plano internacional, esse fenômeno é evocado com as palavras “influência”,  “pressão”, “liderança”, que aparecem em frases do tipo: “Fulano é um líder mundial”. “Não podemos decidir, sem antes ouvir sicrano”.  “Faz quem pode, obedece quem tem juízo”. “Somos a nação mais poderosa”.

Ora, não existe líder sem liderado; não precisamos ouvir a quem não devemos obediência; em princípio, ninguém pode ser tachado de louco só porque se opõe à subserviência.  Seja como for, tudo isso ocorre de forma tão natural em nosso cotidiano, que não nos damos conta da caixa-preta que obscurece silenciosamente nosso discernimento. Geralmente, afirmamos algo, e pronto! Negamos, e pronto! Sim! Mas será que nossas afirmações e negações surgem no vazio? Se não, de onde negamos ou afirmamos algo? O que valida as nossas teses ou antíteses? Enfim, por que nos dizem que o direito é fundamental à convivência humana?

Defendemos que as respostas a essas perguntas são condicionadas pelas coerências operacionais da rede de conversações que conservamos e realizamos no devenir de nosso modo de vida. Aliás, a forma das próprias perguntas não escapam a essa condição, porque falamos e escutamos, sempre, desde uma rede fechada de conversações (cultura), em cujas coerências operacionais nos apoiamos, conscientemente ou não, para negar ou afirmar algo. E, como tal, o direito não é senão uma coerência operacional da cultura patriarcal/matriarcal dominante, em cujo domínio tem função estratégica: a de obrigar os seres humanos vencidos ou convencidos.

É que somos o presente de uma história evolutiva que se manifesta, desde o modo de viver e conviver da espécie hominídea a que pertencemos, como uma rede fechada de conversações; por isso, espontaneamente, esgrimimos nossos argumentos ancorados nesse pano de fundo cultural, supondo-o evidente ou fora de questão; a consequência mais visível dessa ancoragem é que todo argumento desarmônico com a configuração histórico-relacional em que vivemos e convivemos imersos, geração após geração, via de regra, é lançado como descarte irracional na contabilidade lógica do pensamento dominante. E, nesse ponto, irrompe uma importante questão, para qual tentaremos propor uma resposta adequada.

É possível pensar diferente no domínio de uma única cultura, enquanto rede fechada de coordenações recursivas de condutas consensuais  de ações e emoções? Sem embargo, a  nossa resposta é negativa! Posto que a opção por vias de raciocínio diferentes, no mesmo domínio cultural, não conduz, necessariamente, a pensamentos diversos. Na verdade, o decisivo para a diferenciação de pensamentos não são os modos de argumentar ou de raciocinar, mas sim as emoções que os especificam. Se alguém argumenta de uma forma e seu contendor adota outra estratégia, mas estão os dois guiados pela emoção da agressão,  o mínimo que podemos afirmar é que ambos são estúpidos, e não que se agridem porque pensam diferente.

Divergências, disputas, convergências, porfias, confrontos de desejos, preferências e conveniências não induzem, automaticamente, maneiras de pensar diferentes. O pensar diferente supõe coerências operacionais de uma cultura diferente, especificada pela classe de emoções que a determina. A cultura patriarcal dominante, em cujo domínio nos encontramos imersos, se caracteriza, basicamente, pelos vetores da apropriação, competição, negação, arrogância, agressão, desconfiança, guerra, hipocrisia, estupidez, do autoritarismo, ainda que nessa rede de conversações possamos observar resíduos de uma cultura neomatríztica pré-patriarcal, cujo fundamento biológico-cultural elementar descansa na total confiança, no mútuo respeito e espontaneidade da relação materno-infantil.

E não é por outra razão que distinguimos, atualmente, dois modos de vida fundamentais em curso, logo, consequentemente, duas maneiras de pensar diferentes; uma que rotulamos de colonialista, centrada na arrogância, agressão, competição e apropriação, e outra de pós-colonialista, focada no respeito mútuo, no acolhimento do outro, como legítimo outro na coexistência, e na colaboração. Na realidade, se aceitássemos que alguém pensa diferente em um espaço cultural em que todos os indivíduos são guiados por idêntica classe de emoções, por coerência, teríamos de admitir a possibilidade de mudança sem deslocamento, imaginável, certamente, apenas no plano simbólico.

Na práxis cotidiana, se alguém nos diz que mudou de endereço, não resistimos em perguntar, imediatamente: para onde?, pois temos por certo que qualquer mudança de endereço implica deslocamento no espaço físico. Portanto, se uma pessoa diz que mudou de endereço, mas permanece no mesmo local, com ânimo definitivo, algo de anormal estará acontecendo, sobretudo se a presença do ouvinte for habitual na residência dela nos almoços de final de semana, pois alguém que está imbuído na emoção de mudar, não pode fluir simultaneamente na emoção de permanecer. E essa conclusão, de fato, também é válida para as mudanças que se dão no espaço psíquico. Alguém que diz: Estou feliz!, e sempre gozou da felicidade, não pode ter mudado de ânimo. Teria mudado se estivesse triste, talvez!

O truque do “faz de conta” só é possível num domínio cognitivo em que a biologia do observador não influiu em suas coordenações consensuais de ação; num espaço em que a linguagem simbólica seja alçada à condição de prótese organísmica, meramente descritiva do meio envolvente, com potencialidade para substituí-la, como pensam as filosofias da linguagem e da consciência, que enxergam o processo cognitivo na forma de um mecanismo de representação do mundo que nos circunda. Por isso, não duvidamos que o simbolismo linguístico seja mesmo capaz de produzir nos inadvertidos a “ilusão” de que a palavra substitui a experiência, passando, com isso, a ideia de que a simples enunciação do vocábulo “mudança” realiza, concretamente, a coordenação comportamental do organismo, correspondente ao efetivo deslocamento físico ou psíquico.

É o que se dá, geralmente, no domínio colonialista, em cujo espaço cognitivo “fazemos sem fazer”, “mudamos sem mudar”; “espionamos sem espionar”, “amamos sem amar”; quer dizer, onde vivenciamos o genuíno mundo do faz de conta, cuja conservação só interessa aos colonizadores de hoje e de sempre. Sinceramente, ainda que Barack Obama diga ao Brasil que nos “espiona para o nosso próprio bem”; que a Inglaterra, aliada dos estadunidenses, nos diga que a retenção de um brasileiro, procedente da Alemanha, em um dos seus aeroportos, por nove horas, tratou-se de operação de rotina antiterrorista; que nos digam que o espaço aéreo do Velho Continente foi interditado ao sobrevoo de um chefe de Estado latino-americano sem violação às normas aeronáuticas internacionais, bem como à soberania do país afetado, ou que Facebook, Google, Yahoo! e Microsoft não vendem nossos dados a arapongas norte-americanos,  temos séria e justificável dificuldade em aceitar que tais ações sejam guiadas pelo respeito mútuo, pela confiança, pela colaboração.

Basicamente, são esses os temas abordados no ensaio que inaugura o “pensamento pós-colonialista”, cuja íntegra do texto o Blog do Gomes pública originariamente neste espaço virtual (clique PDF acima), de onde convidamos o internauta a oferecer propostas de aperfeiçoamento, de modo a ampliar o âmbito de reflexão, pois entendemos que num Estado democrático de direito, edificado sobre a liberdade de pensamento, não pode haver um pensamento mais livre que outro, tampouco uma liberdade que não possa ser repensada.