Por Gildson Gomes dos Santos*

*As manifestações publicadas neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião do Blog do Gomes e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.

Uma homenagem do Sertão nordestino ao filósofo e ativista social Rodrigo Petrônio

 

cobraNaja

Findas as eleições de 2014, no último dia 26 de outubro, imediatamente, duas palavras pouco usadas em nosso cotidiano passaram a enfeitar o discurso político. Falo dos substantivos “conversa” e “diálogo”. Com efeito, na sua primeira fala pública, depois de reeleita, a presidente Dilma Rousseff declarou à Nação que “está disposta ao diálogo”. Por sua vez, o presidente do Congresso Nacional, Renan Calheiros, mandando uma indireta pela imprensa à Dilma, concita sua aliada a “conversar” mais com o Parlamento, visto que “conversa, todos sabem, não tira pedaço”.

A princípio, a não ser a desconfiança generalizada na disposição da presidente reeleita dialogar com a sociedade, outro efeito não se pôde notar em decorrência das reportadas declarações. Escaldado, um morubixaba da oposição fizera questão de sublinhar a dificuldade para “crer que o diálogo proposto [por Dilma] não seja manipulação” [1]. Mas o que importa, fundamentalmente, nessa embromação toda, é a impressão de que tanto a mídia, a opinião pública, quanto os analistas políticos, grosso modo, tomam os verbos conversar e dialogar como sinônimos de mera interlocução entre atores sociais. O objetivo deste ensaio, porém, é negar a existência de tal relação sinonímica entre diálogo e conversa.

Sem dúvida, no uso que deles fazemos diariamente, em particular no modo de pensar hermenêutico ou colonialista[2], dominante na cultura ocidental, os vocábulos diálogo e conversa tangenciam-se em algum ponto, na medida em que expressam formas de comunicação entre duas ou mais pessoas. Mas também não pode haver dúvida de que esse vetusto jeito de ver as coisas oculta o que há de mais fundamental na comunicação humana: as dinâmicas ou os processos linguísticos que tentamos expressar com auxílio dos signos, das palavras, muita vez sem sucesso. E não seriam os vocábulos conversar e dialogar que escapariam a esse fenômeno. Definitivamente, não.

Sem embargo, para evitar o risco de não ser compreendido, antes preciso realizar uma operação epistemológica, dando um salto triplo twist carpado[3] a partir do espaço colonialista, no qual nos encontramos, em regra, para o domínio pós-hermenêutico ou pós-colonialista[4], em cujo espaço de pensamento defendo, primordialmente, que 1) pensamos de acordo com a noção que temos de nós mesmos, enquanto seres vivos; 2) não há resposta adequada para pergunta inadequada, posto que toda pergunta, de alguma maneira, determina a resposta[5]; 3) a interpretação não existe[6]; finalmente, 4) toda conduta é especificada por uma emoção, conforme propõe a biologia maturaniana.[7]

De fato, sustento a existência de uma relação isomórfica necessária entre explicação e experiência, pois a concepção biológica dominante segundo a qual o organismo humano configura um sistema aberto às contingências do meio nos conduz a perguntas diferentes, logo também a respostas, das de quem aceita a configuração do organismo humano como um sistema fechado na sua organização, embora aberto ao fluxo de matéria e energia (sendo autopoiético, portanto)[8]. Por essa fundamental razão, se formulamos uma pergunta desde o domínio pós-colonialista, em cujo espaço acolhemos a autopoiese molecular como premissa básica, jamais poderei escutar uma resposta adequada a partir do domínio colonialista, ou vice-versa, posto que cada domínio é validado por condições epistemológicas diferentes.

Assim, a título propedêutico, quando nos reportarmos às palavras diálogo e conversa, no espaço colonialista, tomamo-las como parte de um sistema de signos que supostamente representa algo externo ao observador. Por outro lado, quando fazemos referência às mesmas palavras desde o domínio pós-colonialista, já estaremos indicando processos, dinâmicas vitais, que emergem na operação de distinção do observador; e não apenas nos referimos a símbolos, que significariam algo, independentemente de o observador traer a la mano, como diriam Humberto Maturana e Varela[9]. Nesse sentido, a prática que chamamos de interpretação não seria senão um truque conveniente ao pensamento hermenêutico, sendo descabida, portanto, no espaço pós-colonialista, em que a realidade é constituída pelo observador, logo imune à hermenêutica, que supõe uma realidade preexistente ao observador, dada ou construída.

No domínio pós-colonialista do pensar, no qual toda interpretação será inútil, vale repetir, o que o torna, então, pós-hermenêutico, as palavras diálogo e conversa não induzem sinônimos, porque são usadas para indicar coordenações de condutas diferentes e contraditórias. Para um ser pensante pós-colonialista, conversar e dialogar equivale a misturar água e óleo: a heterogeneidade sempre terá lugar, visto que as emoções, enquanto disposições corporais dinâmicas, especificam cada coordenação de ação ou omissão de forma diversa. Na realidade, na conduta de conversar estará presente a emoção do acolhimento, do respeito mútuo, ao passo que na dinâmica da ação de dialogar aparecerá o incontrolável desejo de obrigar, vencer ou convencer o interlocutor.

A despeito do que imagina o pensamento dominante, a pessoa que se apresenta para conversar[10] o faz guiada pela emoção da reciprocidade respeitosa; animada pelo espírito da colaboração entre diferentes. Numa situação de conversação, a condição para que haja conversa é a de que os interlocutores se respeitem mutuamente em torno de um projeto comum, um tendo o outro como legítimo outro na coexistência. Nessa relação de conversação, quando não há convergência de opiniões, ou ampliamos o âmbito de reflexão para que todos os conceitos nele se encaixem, ou cada interlocutor guardará consigo suas certezas petrificadas, sem que com isso implique na desastrada produção de pessoas frustradas, vencedoras ou derrotadas, tal como sói acontecer no espaço colonialista.

Na origem, a palavra conversar (lat. con+versare) já fazia referência à ação de “dar voltas juntos”, “dançar juntos”, envolvendo, portanto, acolhimento de uma pessoa por outra, no espontâneo prazer de estarem juntas colaborando entre si. Bem diferente do comportamento de dialogar (gr. dia+logos), que, etimologicamente, quer dizer “através da razão”. Não quero dizer com isso, porém, que no ato de conversar não haja racionalidade; nele, via de regra, a razão é bem-vinda e aparece com a missão de justificar nossas escolhas, pois não existe argumento racional desapartado de fundamento emocional. É isso mesmo: todo argumento sempre resultará de uma escolha; ora, quando escolhemos a premissa fundamental em que se esteiam nossos argumentos, estamos no plano das emoções, das preferências, das ganas, e não no da metódica racionalidade.

Efetivamente, no ato de dialogar ocorre situação distinta. Nele se privilegia a razão, a despeito da emoção que o especifica. Mas nessa operação epistemológica reside um problema insuperável, visto que não existe ação ou omissão que não seja determinada por uma emoção, ainda que o pensamento hermenêutico tente esconder esse busílis epistemológico, para conferir vestes de objetividade a seu modo de argumentar. Trata-se, evidentemente, de um truque, que só faz sentido no domínio colonialista do pensar, em cujo campo o saber cobra obediência, e as divergências de opinião, por via de regra, jamais se dissolvem espontaneamente, tendo por vezes que ser superadas por critérios de poder ou de autoridade.

No domínio colonialista, a vantagem estará sempre com quem tem o poder de resolver, de decidir: o líder ou a autoridade (econômica, política, judicial, paterna, governamental, religiosa). Quando isso eventualmente não acontece, o será por conta da tolerância, que aparece para mascarar a emoção que especifica o argumento da potestade ou da liderança. Ocorre que a tolerância acaba por se revelar apenas como mais um daqueles truques geniais inventados pelo pensamento hegemônico, pois é evidente que “somente tolera quem pode”. Tolerância de fraco é mesmo motivo de galhofa. Na verdade, quem diz “eu tolero”, apenas retarda o momento de trucidar o outro, porque tolerância não induz respeito. Este se funda na espontaneidade do acolhimento amoroso, pelo simples prazer de conviver com o outro, ainda que se pense diferente, aquela se apoia na potestade da autoridade, que cobra obediência.

Resumidamente, podemos afirmar que quem argumenta “através da razão” ou dialoga sempre terá a pretensão de obrigar, vencer ou convencer o interlocutor. É que, na realidade, a pessoa que invoca a racionalidade acredita que seu argumento se apoia num dado objetivo, externo a si. Logo, se afirmamos algo com base numa referência externa, tal afirmação será supostamente correta, devendo então ser imune a contestação. Assim sendo, toda pessoa que discorda de uma afirmação racional será tonta, louca ou incapaz de enxergar um palmo além do nariz, pois o que dizemos expressa a verdade por se apoiar na mais límpida objetividade. Nessa maneira de pensar, o observador é absolutamente separado do objeto, segundo propõe a velha teoria do conhecimento, rechaçada pelo biólogo chileno Humberto Maturana[11].

Nessa linha colonialista do diálogo, então, se não aceitamos o argumento, supostamente racional e objetivo, restará a seu autor o apelo à intimidação pelos meios que tiver a seu alcance ou até mesmo ao uso da força física para vencer a resistência. Outra tática é a do convencimento, quando o recurso da violência física não for conveniente. Sucede que convencer, segundo Ximena Dávila “significa vencer al otro. […]. A veces escuchamos esperando que el otro valide lo que decimos, porque creemos tener la razón, […].”[12] Nesse sentido podemos afirmar, pois, que diálogo, sim, arranca pedaço, porque, efetivamente, se converte em manipulação, ao contrário da conversação, cuja prática sempre será edificante, ainda que Dilma, Renan e seus opositores ignorem essa distinção.


* Aspirante a doutor da Faculdade de Direito da Universidade Nacional de Buenos Aires (ARG.). Pós-graduado em Direito Público pela UNIFACS (BA). Graduado em Direito pela UNIFMU (SP). Professor de Direito e Teoria Política da Faculdade Dom Luiz de Orleans e Bragança (BA). Procurador-Geral do Município e ex-presidente do Conselho Municipal de Educação de Ribeira do Pombal (BA). Sócio fundador da firma G. Gomes dos Santos Advogados Associados (www.blogdogomes.com.br).

[1] Em ensaio publicado na Gazeta do Povo (Londrina/PR), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso questiona se o que a presidente reeleita Dilma Rousseff propõe não seria, no fundo, manipulação, ao invés de é “diálogo”. Disponível em: <http://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/>. Acesso em 2 nov. 2014.

[2] Por mais que se tente obscurecer, o fato é que, enquanto coerência operacional do patriarcalismo, o sistema colonialista moderno, segue atuante e mais vivo que nunca. Não talvez na sua forma primitiva de exploração econômica, mas no campo das ideias, pois vivenciamos, ainda hoje, o tempo da colonização político-cultural. Cf. Naim (NAIM, Moisés. Colonialismo, DSK e o FMI. El País. Madrid, 22 mai. 2011. Disponível: <http://www.elpais.com/articulo/internacional/>. Acesso em: 29/05/2011). Com esta visão parece compartilhar também o filósofo espanhol Raimon Panikkar (PANIKKAR, Raimon. Entrevistas. Naturaleza: Raimon Panikkar. Agenda Viva nº 23 [en línea]. Madrid:  Fundación Félix Rodríguez de la Fuente, 21 marzo 2011. “Raimon Panikkar: ‘Todo está ligado: la Tierra está viva, la materia está viva’”. Entrevista concedida a Jordi Pigem. Disponível em: <http://www.agendaviva.com>. Acesso em: 16/06/2012, p. 11) para quem: “La esencia del colonialismo no es la explotación sino el monoculturalismo, la creencia de que una sola cultura puede marcar la pauta para solucionar los problemas humanos”. Boaventura de Sousa Santos (SANTOS, Boaventura de Sousa. Do pós-moderno ao pós-colonial. E para Além de um e outro. Conferência de Abertura do VIII Congresso Luso-afro-brasileiro de Ciências Sociais, realizado em Coimbra, de 16 a 18 set. 2004.  Disponível em: <http://www.ces.uc.pt>. Acesso em 15/11/2010, p. 8) também pondera que “o fim do colonialismo enquanto relação política não acarretou o fim do colonialismo enquanto relação social, enquanto mentalidade e forma de sociabilidade autoritária e discriminatória”.

[3] Paráfrase exagerada do duplo twist carpado de Daiane dos Santos.

[4] Mais adiante esclarecerei a extensão semântica desses termos. Por ora, cumpre-me alertar apenas que essa operação não tem qualquer relação com a metáfora “out of the box”, cuja proposta sugere que sejamos criativos, buscando soluções “fora da caixa” ou do domínio em que estamos habituados a pensar. Não. Essa ideia nos induz ao equívoco de que só existe um modo de pensar (uma caixa), porque seria possível pensar fora dele, mas estaríamos fadados a retornar à origem, isto é, à velha caixa de pensamento. Pelo contrário, quando falo em saltar de um domínio de pensamento para outro, na verdade, afirmo a existência de outro modo de pensar: o pós-colonialista (pós-hermenêutico) , diferente daquele que estamos habituado a cultivar: o colonialista (hermenêutico). O que proponho, então, não é pensar “fora da caixa”, para depois a ela retornar. Mas, sim, pensar em outra caixa (“in other box”) diferente.

[5] Segundo o cibernético Von Foerster (VON FOERSTER, H. On Constructing a Reality. Principia Cybernetica Library, 1984, pp. 41-61.  Originally published in Environmental Design Research, Vol. 2, F. E., Preiser (ed.), Dowden, Hutchinson & Ross, Stroudberg, 1973, pp. 35-46.  Disponível em: <http://pespmc1.vub.ac.be/>. Acesso em: 9 jun. 2013): “The way in which a question is asked determines the way in which an answer may be found” (A forma em que uma pergunta é feita determina a forma em que se pode encontrar a resposta).

[6] Cf. nosso Pensamento pós-colonialista: uma forma humanista de pensar a realidade, in www.blogdogomes.com.br.

[7] MATURANA, Humberto R. Emociones y lenguaje en educación y política. 10ª ed.; Santiago: Ed. Dolmen Ensayo, 2001a. Disponível em: <http://www.franjamoradapsico.com.ar>. Acesso em 12/06/2010.

[8] MATURANA, Humberto R. (1970). Biology of cognition. Illinois: Biological Computer Laboratory (BCL Report 9.0), University of Illinois, Urbana IL, 1970. 58p. Disponível em: <http://www.enolagaia.com>. Acesso em 24 mar. 2012..

[9] MATURANA, Humberto; VARELA, Francisco.  (1984). El árbol del conocimiento: las bases biológicas del entendimiento humano. Buenos Aires: Lumen, 2003a, 172 p.

[10] Chamo de conversação, esclarece Humberto Maturana (In Cognição, ciência e vida cotidiana. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2001, p. 132), “nossa operação nesse fluxo entrelaçado de coordenações consensuais de linguajear e emocionear e chamo de conversações as diferentes redes de coorde­nações entrelaçadas e consensuais de linguajear e emocionear que geramos ao vivermos juntos como seres hu­manos”.

[11] Cf. nota 8.

[12] DÁVILA, Ximena Y.; MATURANA, Humberto R. Habitar humano: en seis ensayos de biología-cultural. Santiago: J. C. SÁEZ, 2008, 394 p.

Por Gildson Gomes dos Santos*

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Marina

Particularmente compreendo com pureza d’alma o discurso de Marina Silva e vejo sinceridade no que a candidata diz. O problema é que Marina fala de um domínio cultural estranho ao espaço em que as eleições estão sendo praticadas: o da cultura patriarcal.

Se Marina está plantando para que gerações futuras possam colher daqui a cem anos, tudo bem! Sua campanha parece perfeita. Tome numa face e ofereça a outra. Nada contra! Mas, se o objetivo for vencer a eleição presidencial de 2014, com esse discurso, o fracasso a aguarda. E não há nada o que fazer senão insistir na busca pelos sagrados valores perseguidos.

Infelizmente, a campanha de Marina Silva ainda não se deu conta de que na rede fechada de conversações (cultura) em que nos encontramos imersos não há espaço para a “verdade”, o “respeito”, o “amor”, a “gratidão”, a “confiança”, a “colaboração”. Nela não podemos chorar, nos emocionar, tampouco oferecer a outra face, ao menos num primeiro momento.

Na linha cultural aceita irrefletidamente no Ocidente prevalece o apoderamento, o controle, a desconfiança, o desrespeito, o patrimonialismo, a hierarquia, o preconceito, a intolerância, o desamor, a negação do outro, enfim. Lamento dizer, mas são essas as cartas que estão na mesa. Não é possível trocar de baralho na atual conjuntura. Uma operação desse nível demandaria anos, e não horas…

Marina Silva, se seu desejo é semelhante ao meu, nesta fase da campanha, desafie, retribua os seus adversários com  o mesmo metal vil. À Dilma impute o Petrolão, gerenciado por um funcionário da confiança dela, segundo o art. 37, II, da Constituição Federal; cobre coerência relativamente ao discurso oco de combate à corrupção de Dilma, pois quem é aliado de Maluf, Sarney, Renan Calheiros, Collor e Lula não tem respaldo moral para enfrentá-la.

Depois, se o povo lhe conceder a honra de ser a presidente da República, ofereça a outra face ao Brasil, e não a seus adversários, pondo em movimento o processo de transformação cultural  que esperamos de pessoas utópicas, ingênuas, doces e puras como você, desde a “verdade”, o “respeito”, o “amor”, a “gratidão”, a “confiança”, a “colaboração”.

Por Gildson Gomes dos Santos*

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reformas

Antes que a cegueira midiática me rotule de conservador, ainda que de fato o seja ̶  assumidamente ̶ , no sentido biocultural do termo, desejo antecipar que o uso feito pelos meios de comunicação, bem como pelas campanhas dos candidatos e candidatas a presidente da República do Brasil, da palavra “reforma”, é manifestamente enganoso, se aceitamos a linguagem, não na forma de um sistema simbólico, ao modo do pensamento corrente, porém como um fenômeno biológico, segundo propõe o doutor Humberto Maturana, em “Reality: The Search for Objectivity or the Quest for a Compelling Argument”[1].

Com efeito, o uso simbólico da palavra “reforma” induz ao equívoco de que a “ação de reformar” equivale à “ação de mudar”. Não raro ouvimos jornalistas perguntarem por reformas e candidatos as prometerem como se tal providência fora expressão ou sinônimo de mudança de um certo estado de coisas para outro. Ledo engano! Não é bem assim. No fundo, quem da palavra reforma se vale para propor alguma mudança ignora a natureza biológica da linguagem ou o faz de má-fé, na tentativa de enganar o ouvinte, e, no caso dos candidatos e candidatas, o eleitor.

A compreensão da linguagem como fenômeno biológico, quer dizer, como um entrelaçamento recursivo de coordenações de ações, sentires e emoções,  nos induz a enxergar que a palavra “reforma”, secundária no contexto, diga-se de passagem, não evoca mudança alguma. Pelo contrário, toda reforma tende a conservar o que já existe; a reforçar estruturas “preexistentes”, ampliando comodidades. Claro! De modo a atender às conveniências do status reformador. Basta pensar na reforma de uma estrutura qualquer, como a de uma casa, por exemplo: altera-se a forma, reforçar-se as estruturas, muda-se a cor, acrescenta-se anexos, deixando-a mais confiável e aprazível. Mas não dizemos que a casa é outra. Por quê? Porque permanecemos na mesma casa. Desta feita, alterada por obra da reforma.

Vale insistir: quem se coordena para reformar algo indica, de plano, que não deseja mudar nada, pois a função da reforma não é outra senão a de manter as coisas como estão, com um ajustezinho aqui, outro ali, de maneira a satisfazer o conforto do status quo. Ainda que nem toda reforma o seja, sustento que, no campo político, toda proposta de reforma exala cheiro de tapeação, quando tal termo é usado maliciosamente para evocar “coordenação de mudar”, posto que toda proposta de mudança implica “deslocamento”. Ao contrário da de reforma, em cuja coordenação de conduta descansa o ardente desejo de permanência. É o que de fato acontece na nossa práxis cotidiana.

Na realidade, se alguém nos diz que mudou de endereço, não resistimos em perguntar, imediatamente: para onde?, pois temos por certo que qualquer mudança de endereço implica deslocamento no espaço físico. Portanto, se uma pessoa diz que mudou de endereço, mas permanece no mesmo local, com ânimo definitivo, algo de anormal estará acontecendo, pois alguém que está imbuído na emoção de mudar, não pode fluir simultaneamente na emoção de permanecer. Conclusão que também se aplica às mudanças que se dão no espaço psíquico. Alguém que diz: Estou feliz!, e sempre gozou da felicidade, não pode ter mudado de ânimo. Teria mudado se estivesse triste, talvez!

O truque do “faz de conta” só é possível num domínio cognitivo em que a biologia do observador não influiu em suas coordenações consensuais de ação; num espaço em que a linguagem simbólica seja alçada à condição de prótese organísmica, meramente descritiva do meio envolvente, com potencialidade para substituí-la, como propõem as filosofias da linguagem e da consciência, que enxergam o processo cognitivo na forma de um mecanismo de representação do mundo que nos circunda. Ocorre que na experiência as coisas não operam dessa maneira.

A linguagem, ao modo de um sistema de signos, é capaz mesmo de produzir nos inadvertidos a “ilusão” de que a palavra substitui a experiência, passando, com isso, a ideia de que a simples enunciação do vocábulo “reforma” realiza, concretamente, a coordenação comportamental do organismo, correspondente ao deslocamento físico ou psíquico, que se dá na ação de mudar. Trata-se de mágica só implementável no espaço da linguagem simbólica, como decorrência de efeitos semióticos artificiais. Contudo, quando perguntamos pela coordenação de conduta que o signo “reforma” evoca, nos damos conta de que a “ação de reformar” não implica deslocamento algum, mas, sim, permanência. E nesse sentido “reforma” e “mudança” se apartam, porque efetivamente constituem coordenações de condutas diferentes.

Doravante, então, seria convinhável aos desavisados, que fazem uso da palavra reforma, indicarem claramente aos leitores, ouvintes e eleitores se a utilizam no domínio simbólico corrente do faz de conta, supostamente racional e objetivo, ou se pretendem com ela evocar efetiva mudança no atual estado de coisas. Alerto, porém, que não se trata de uma escolha sem consequências, porque a opção por reformas, para evocar coordenações comportamentais de mudança, supõe que estejamos preparados para responder à seguinte pergunta: “Qual será o seu novo endereço?”.

*Revisado em 06/09/2014, 11h15.



[1] MATURANA, Humberto. Reality: The Search for Objectivity or the Quest for a Compelling Argument. The Irish Journal of Psychology, nº 1, 1988, Vol. 9, pp. 25-82. Disponível em: <http://www.enolagaia.com>. Acesso em 25 jan. 2012.

Por Gildson Gomes dos Santos*

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(Apresentação do ensaio)

Pensamento_pos_colonialista_pdf

Por que a violência aumenta, se existe polícia armada? Por que a polícia violenta, se ela existe para proteger? Por que impomos a liberdade, se a autonomia é sua condição? Por que exigimos a democracia,  se ela se apoia na liberdade? Por que o controle, se a liberdade é um direito fundamental? Por que a competição, se a convivência pode se dar na colaboração? Por que cobramos obediência ao saber, se o pensamento é livre? Por que a liberdade é um direito, se a todo direito corresponde uma obrigação? Afinal de contas, por que necessitamos de direitos?

Com efeito, a simplicidade destas perguntas é enganosa, pois nelas se esconde a “caixa-preta” cultural do Ocidente, cuja decodificação a nova ciência vem tentando realizar, diuturnamente, desde a última década do século XX. Dela já foram extraídos importantes dados, que remontam à origem e evolução de uma rede de conversações que existe há mais de 7.000 anos, e se manifesta de várias maneiras, sob o rótulo genérico de cultura patriarcal/matriarcal europeia, cujo foco se concentra na apropriação. No assenhoreamento do que for suscetível de domínio (apoderamento): da matéria, do dinheiro, do conhecimento, do espírito, da verdade, da razão, da alma, do corpo, da dignidade alheia.

Hoje, esse apego à apropriação aparece nas conversas cotidianas, com bastante nitidez, quando alguém diz: “Você vale o que tem!”. Se tem conhecimento, vale. Se tem dinheiro, vale. Se tem ações na bolsa, vale. Se tem poder, vale. Se tem direito, vale. Se não tem, então… Com certeza,  também o direito aparece, nessa trama cultural, como objeto e mecanismo viabilizador da apropriação. Alguém tem ou não tem certo direito, que não exprime nada mais que um vínculo inventado para ligar o proprietário ao ente apropriado.  É assim que temos direito: à vida, ao nome, ao próprio corpo, à cidadania, ao conhecimento, à honra, à dignidade, à liberdade (de opinião, de consciência, de expressão, de ir e vir), ao patrimônio, enfim.

Nada obstante, tudo indica que, se houvesse limite à concupiscência pratriarcalista, a vida estruturada dessa forma poderia ser maravilhosa. O problema é que, nesse modo de viver e conviver, quem já possui tende a querer mais e mais; sendo forçado, portanto, a avançar no espaço alheio, causando prejuízo ao outro. A volúpia imperialista é, de fato, um sintomático exemplo dessa tendência. Na lógica do apoderamento, só não acumula quem não tem oportunidade. E quem não pode fazê-lo, diretamente, procura dar um jeito de ter o controle indireto sobre o patrimônio alheio, se cacife tiver para tanto. No plano internacional, esse fenômeno é evocado com as palavras “influência”,  “pressão”, “liderança”, que aparecem em frases do tipo: “Fulano é um líder mundial”. “Não podemos decidir, sem antes ouvir sicrano”.  “Faz quem pode, obedece quem tem juízo”. “Somos a nação mais poderosa”.

Ora, não existe líder sem liderado; não precisamos ouvir a quem não devemos obediência; em princípio, ninguém pode ser tachado de louco só porque se opõe à subserviência.  Seja como for, tudo isso ocorre de forma tão natural em nosso cotidiano, que não nos damos conta da caixa-preta que obscurece silenciosamente nosso discernimento. Geralmente, afirmamos algo, e pronto! Negamos, e pronto! Sim! Mas será que nossas afirmações e negações surgem no vazio? Se não, de onde negamos ou afirmamos algo? O que valida as nossas teses ou antíteses? Enfim, por que nos dizem que o direito é fundamental à convivência humana?

Defendemos que as respostas a essas perguntas são condicionadas pelas coerências operacionais da rede de conversações que conservamos e realizamos no devenir de nosso modo de vida. Aliás, a forma das próprias perguntas não escapam a essa condição, porque falamos e escutamos, sempre, desde uma rede fechada de conversações (cultura), em cujas coerências operacionais nos apoiamos, conscientemente ou não, para negar ou afirmar algo. E, como tal, o direito não é senão uma coerência operacional da cultura patriarcal/matriarcal dominante, em cujo domínio tem função estratégica: a de obrigar os seres humanos vencidos ou convencidos.

É que somos o presente de uma história evolutiva que se manifesta, desde o modo de viver e conviver da espécie hominídea a que pertencemos, como uma rede fechada de conversações; por isso, espontaneamente, esgrimimos nossos argumentos ancorados nesse pano de fundo cultural, supondo-o evidente ou fora de questão; a consequência mais visível dessa ancoragem é que todo argumento desarmônico com a configuração histórico-relacional em que vivemos e convivemos imersos, geração após geração, via de regra, é lançado como descarte irracional na contabilidade lógica do pensamento dominante. E, nesse ponto, irrompe uma importante questão, para qual tentaremos propor uma resposta adequada.

É possível pensar diferente no domínio de uma única cultura, enquanto rede fechada de coordenações recursivas de condutas consensuais  de ações e emoções? Sem embargo, a  nossa resposta é negativa! Posto que a opção por vias de raciocínio diferentes, no mesmo domínio cultural, não conduz, necessariamente, a pensamentos diversos. Na verdade, o decisivo para a diferenciação de pensamentos não são os modos de argumentar ou de raciocinar, mas sim as emoções que os especificam. Se alguém argumenta de uma forma e seu contendor adota outra estratégia, mas estão os dois guiados pela emoção da agressão,  o mínimo que podemos afirmar é que ambos são estúpidos, e não que se agridem porque pensam diferente.

Divergências, disputas, convergências, porfias, confrontos de desejos, preferências e conveniências não induzem, automaticamente, maneiras de pensar diferentes. O pensar diferente supõe coerências operacionais de uma cultura diferente, especificada pela classe de emoções que a determina. A cultura patriarcal dominante, em cujo domínio nos encontramos imersos, se caracteriza, basicamente, pelos vetores da apropriação, competição, negação, arrogância, agressão, desconfiança, guerra, hipocrisia, estupidez, do autoritarismo, ainda que nessa rede de conversações possamos observar resíduos de uma cultura neomatríztica pré-patriarcal, cujo fundamento biológico-cultural elementar descansa na total confiança, no mútuo respeito e espontaneidade da relação materno-infantil.

E não é por outra razão que distinguimos, atualmente, dois modos de vida fundamentais em curso, logo, consequentemente, duas maneiras de pensar diferentes; uma que rotulamos de colonialista, centrada na arrogância, agressão, competição e apropriação, e outra de pós-colonialista, focada no respeito mútuo, no acolhimento do outro, como legítimo outro na coexistência, e na colaboração. Na realidade, se aceitássemos que alguém pensa diferente em um espaço cultural em que todos os indivíduos são guiados por idêntica classe de emoções, por coerência, teríamos de admitir a possibilidade de mudança sem deslocamento, imaginável, certamente, apenas no plano simbólico.

Na práxis cotidiana, se alguém nos diz que mudou de endereço, não resistimos em perguntar, imediatamente: para onde?, pois temos por certo que qualquer mudança de endereço implica deslocamento no espaço físico. Portanto, se uma pessoa diz que mudou de endereço, mas permanece no mesmo local, com ânimo definitivo, algo de anormal estará acontecendo, sobretudo se a presença do ouvinte for habitual na residência dela nos almoços de final de semana, pois alguém que está imbuído na emoção de mudar, não pode fluir simultaneamente na emoção de permanecer. E essa conclusão, de fato, também é válida para as mudanças que se dão no espaço psíquico. Alguém que diz: Estou feliz!, e sempre gozou da felicidade, não pode ter mudado de ânimo. Teria mudado se estivesse triste, talvez!

O truque do “faz de conta” só é possível num domínio cognitivo em que a biologia do observador não influiu em suas coordenações consensuais de ação; num espaço em que a linguagem simbólica seja alçada à condição de prótese organísmica, meramente descritiva do meio envolvente, com potencialidade para substituí-la, como pensam as filosofias da linguagem e da consciência, que enxergam o processo cognitivo na forma de um mecanismo de representação do mundo que nos circunda. Por isso, não duvidamos que o simbolismo linguístico seja mesmo capaz de produzir nos inadvertidos a “ilusão” de que a palavra substitui a experiência, passando, com isso, a ideia de que a simples enunciação do vocábulo “mudança” realiza, concretamente, a coordenação comportamental do organismo, correspondente ao efetivo deslocamento físico ou psíquico.

É o que se dá, geralmente, no domínio colonialista, em cujo espaço cognitivo “fazemos sem fazer”, “mudamos sem mudar”; “espionamos sem espionar”, “amamos sem amar”; quer dizer, onde vivenciamos o genuíno mundo do faz de conta, cuja conservação só interessa aos colonizadores de hoje e de sempre. Sinceramente, ainda que Barack Obama diga ao Brasil que nos “espiona para o nosso próprio bem”; que a Inglaterra, aliada dos estadunidenses, nos diga que a retenção de um brasileiro, procedente da Alemanha, em um dos seus aeroportos, por nove horas, tratou-se de operação de rotina antiterrorista; que nos digam que o espaço aéreo do Velho Continente foi interditado ao sobrevoo de um chefe de Estado latino-americano sem violação às normas aeronáuticas internacionais, bem como à soberania do país afetado, ou que Facebook, Google, Yahoo! e Microsoft não vendem nossos dados a arapongas norte-americanos,  temos séria e justificável dificuldade em aceitar que tais ações sejam guiadas pelo respeito mútuo, pela confiança, pela colaboração.

Basicamente, são esses os temas abordados no ensaio que inaugura o “pensamento pós-colonialista”, cuja íntegra do texto o Blog do Gomes pública originariamente neste espaço virtual (clique PDF acima), de onde convidamos o internauta a oferecer propostas de aperfeiçoamento, de modo a ampliar o âmbito de reflexão, pois entendemos que num Estado democrático de direito, edificado sobre a liberdade de pensamento, não pode haver um pensamento mais livre que outro, tampouco uma liberdade que não possa ser repensada.

Por Gildson Gomes dos Santos*

*As manifestações publicadas neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião do Blog do Gomes e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.

AroeiraSupremoBarraco

O julgamento do Mensalão excede, às escâncaras, as fronteiras da juridicidade, em cujo domínio os juízes do Supremo Tribunal Federal deveriam permanecer durante a exposição de seus vereditos. Sem embargo, ainda que não falte quem ache normais as manifestações de alguns ministros, vislumbramos a real possibilidade de algumas sessões serem convertidas em material de excelente qualidade para exame de psicólogos e psiquiatras forenses, sem desconsiderar, por óbvio, que antropólogos também são beneficiários em potencial de tais resíduos judiciários.

De fato, no curso do julgamento dos mensaleiros, têm chamado atenção o destempero do presidente da Corte Suprema, o ministro Joaquim Barbosa, relator do processo-crime, e o cinismo do ministro Ricardo Lewandowski, o respectivo revisor. O primeiro desabrocha sua estupidez quando finge ser radicalmente sincero,  e o segundo por ser radicalmente fingido,  quando tenta convencer seus pares e o incrédulo público com sua retórica ingênua e contraditória. A situação é tão esdrúxula que a estupidez de Barbosa e Lewandowski aparece diferenciada da dos demais seres humanos, que, como diria Einstein, já é infinita por natureza.

Na verdade, o que a mídia, por elegância, chama de “bate-boca entre ministros”, como o que se dera na última quinta-feira (15/08), no meio-fio, sem hesitação, chama-se de “baixaria”.  Somos forçados a admitir que o ministro Lewandowski forçou a barra, tentando cavar um pênalti para mais adiante convertê-lo em favor de outros réus, que se escondem no seu discurso judiciário fingido; e isso deixou o presidente Joaquim Barbosa irritado, mesmo não se atrevendo a dar nome aos bois favorecidos pelo cinismo lewandowskiano. Entretanto, seria necessário Barbosa apontar, com o dedo em riste, como costuma fazê-lo, ou Lewandowski admitir, enunciando com todas as letras,  provável favorecimento a alguns réus condenados para que isso esteja, de fato, ocorrendo? Em princípio, entendemos que não!

A necessidade de se usar palavras para exprimir uma intenção é uma coerência operacional que diz respeito somente ao pensamento colonialista (moderno), em cuja estrutura residem a arrogância, a hipocrisia, o cinismo, o desrespeito, a desconfiança, a apropriação (inclusive da verdade). Segundo essa maneira de pensar dominante, quando alguém quer fingir, contradizendo que não  deseja algo, argumenta: “Mas eu não falei isso!”, como se as palavras pudessem substituir a experiência vivenciada na práxis cotidiana. Por isso, vira e mexe, Lewandowski aparece negando seu efetivo comportamento, por não ter enunciado publicamente a ação correspondente, como a de que estaria praticando a odiosa chicana. (Ele prefere dizer que está fazendo “justiça”).

Ocorre que as palavras são secundárias na linguagem e nela nada significam, porque apenas servem para evocar fenômenos ou coordenações de ações que o observador distingue nas redes de interações. Quem escuta uma donzela dizendo, ao sair do banheiro, que está “molhadinha” não significa, automaticamente, que ela tenha se banhado, porque o contexto pode dizer outra coisa. A fala exprime apenas um modo de linguajear, e a ela não se reduz a linguagem, que, do ponto de vista pós-colonialista, se manifesta na recursividade de coordenações consensuais de condutas.

Com efeito, quando observamos uma interação entre duas ou mais pessoas e essa interação se torna recorrente, repetitiva historicamente, de modo que possamos abstrair de tal relação coordenações de comportamentos que se reproduzem consensualmente no fluxo interacional com certa duração, temos a linguagem, ainda que nenhuma palavra tenha sido pronunciada. Na verdade as palavras servem apenas para evocar as coordenações de conduta que o observador visualiza em certa rede de comportamentos humanos recursivos.

O que efetivamente desejamos esclarecer, pois, é que, a despeito de o ministro Lewandowski não ter enunciado uma única palavra para admitir que sua ingênua retórica foca a absolvição dos mensaleiros petistas, isso não significa que ele não esteja se coordenando o tempo todo para que isso ocorra, porque os vídeos do julgamento revelam exatamente o oposto. E a nossa conclusão é, de fato, a de que o juiz Lewandowski atua com essa finalidade, embora tente escondê-la nas dobras dos signos, e o ministro Joaquim tenha receio de evocar essa coordenação de ação com as palavras adequadas: tendenciosidade lewandowskiana.

Na verdade, não só Lewandowski é tendencioso, ele apenas não o admite publicamente, porque prefere a hipocrisia à sinceridade, em função da liturgia do cargo que ocupa, e, por conceber a linguagem como um sistema de signos, aproveita-se muito bem desse estratagema simbólico. E nesse sentido, o ministro Joaquim Barbosa, que desconhece a linguagem como um fenômeno biológico, também cultiva a hipocrisia, na medida em que opta por ofender seu colega, fingindo-se sincero, a evocar com a palavra adequada a coordenação de ação por ele praticada. Contudo, não seria demasia afirmarmos, por fim, que hipocrisia e estupidez não são propriedades imanentes a ambos, pois pertencem a quem conserva e realiza o modo de vida próprio da cultura patriarcal dominante. E, nesse sentido, então, Lewandowski e Barbosa são mero reflexo da suprema estupidez que nos envolve.

REFERÊNCIAS

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 _____. Emoções e linguagem na educação e na política. Trad.: José Fernando Campos Fortes. Belo Horizonte: UFMG, 2002. Disponível em: <http://livrosdamara.pbworks.com>. Acesso em 26/11/2010;

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 _____; YÁÑEZ, Ximena Dávila. Habitar humano: en seis ensayos de biología-cultural. Santiago: J. C. SÁEZ, 2008, 394 p.;

 _____; VERDEN-ZÖLLER, Gerda.  (1993).  Amor y juego: Fundamentos olvidados de lo humano desde el patriarcado a la democracia. Trad.  Augusto Zagmutt y Alfredo Ruiz. 6ª ed.; Santiago do Chile: JCSAÉZ, 2003c.

 SANTOS, G. Gomes dos. Pensamento pós-colonialista: uma forma humanista de pensar a realidade. Estudo produzido como requisito parcial de avaliação da disciplina Direito Penal Constitucional, do Programa de pós-graduação stricto sensu, em grau de doutorado, da Faculdade de Direito da Universidade Nacional de Buenos Aires, Prof. Doutor Prof. Dr. José Luiz Quadros de Magalhães. Buenos Aires: Trabalho inédito, Ago./2013, 143 f. Disponível na forma impressa na biblioteca do escritório G. Gomes dos Santos Advogados, em Ribeira do Pombal – BA.

 _____. Perspectiva pós-colonialista sobre a intenção criminosa: uma abordagem fundada na matriz biológico-cultural da existência. Estudo produzido como requisito parcial de avaliação da disciplina Direito Penal e Ação Significativa, do Programa de pós-graduação stricto sensu, em grau de doutorado, da Faculdade de Direito da Universidade Nacional de Buenos Aires, Prof. Doutor Paulo César Busato. Buenos Aires: Trabalho inédito, Fev./2013, 351 f. Disponível na forma impressa na biblioteca da Advocacia Geral do Município de Ribeira do Pombal.

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