Por Deivison Conceição*

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No admirável mundo novo diatópico de Aldous Huxley, o tempo é calculado em antes e depois de Ford, o planeta é administrado por dez autoridades, o ser humano é produzido em laboratório e todos os civilizados vivem em um sofisticado regime totalitário. Vive-se a ditadura “perfeita”, onde reinam juventude, felicidade, a quase inexistência de doenças infecciosas, a solidão é coisa rara e desejos recalcados quase inexistem no inconsciente, já que podem e devem satisfazerem suas necessidades sexuais sem nenhum pudor. Pai, mãe, casamento e família são coisas obsoletas e que causam rubor e repugna quando citadas. Não existem tentações, já que o homem tem tudo aquilo que foi condicionado (em laboratório) a ter.

Não há inconformismo ou guerra de classes sociais, porque todas elas: Alfa, Beta (classes altas), Gama, Delta e Ipsílon (classes baixas) aprendem desde cedo, em seus berçários e durante toda a sua educação, no centro de condicionamento, através da hipnopedia (técnica que consiste em transmitir “conhecimento” durante o sono) a saberem seus lugares na sociedade, pois o lema principal desse novo mundo é: “Cada um pertence a todos”, eliminando assim a individualidade. Todo comportamento “anormal”, que questione o sistema, deve ser punido, se bem que desde sua concepção, o homem d. F. já é “programado” a não causar qualquer instabilidade na ordem social. “

Então aparece Bernard Marx, um psicólogo Alfa-Mais que, durante seu condicionamento, dizem, teve álcool injetado em seu pseudossangue. Essa é uma forma galhofa de as pessoas explicarem o porquê de suas ideias estranhas e sua baixa estatura. Bernard vive em uma roda gigante de insegurança, já que é diferente e não se sente aceito pelas pessoas do seu círculo social, até seus empregados Gamas-Menos não o tratam com o devido respeito. Lenina, uma moça que já dormiu com diversos homens, e isso é prova de grande status social, é convidada por ele a ir à Reserva do Novo México, um local onde vivem “selvagens” que mantém relações obsoletas: foram concebidos pelo método tradicional de reprodução e nutrem uns pelos outros sentimentos perigosos para a estabilidade social, além de seus rituais que causam repulsa aos civilizados. Lá conhecem Linda e seu filho John. Linda outrora uma Beta, estava ali, agora uma selvagem, por ter transgredido as leis da contracepção. Bernard, após algumas conversas com John, decide levá-lo a Londres, não por bondade, mas por vê-lo como uma arma que poderá ser usada contra o diretor do centro de condicionamento. Este o sentenciou a viver com as classes inferiores: “Por suas ideias heréticas sobre o esporte e o soma (substância química preceituada pelos administradores do sistema, usada por praticamente todas as classes sociais, com a diferença de que as classes baixas só a recebem após o término de sua jornada de trabalho diário, já as altas, usam-na ao seu bel prazer. Esta é um forte paliativo para possíveis frustrações e tristeza), pela escandalosa irregularidade de sua vida sexual, pela sua recusa em obedecer aos ensinamentos de nosso Ford, e em comportar-se fora das horas de trabalho como um “bebê no bocal”…”

Na civilização, o selvagem ganha enorme destaque, destaque típico atribuído a um animal selvagem e raro. A partir daí John tem um choque de realidade. Compreende os valores do mundo civilizado, mas não os aceita. Recitando Shakespeare, cuja obra (assim como outras milhares) está definitivamente proibida no mundo moderno por estimular sentimentos e sensações conflitantes ao ego, ele passa a questionar publicamente o sistema do “novo mundo”: um mundo sem religiões, sem laços, sem famílias, sem artes e sem inconformismo.

O destino de Bernard e John fica nas mãos das autoridades. Cada um recebe uma sentença por causa dos comportamentos anormais. John retorna à sua vida de “bom selvagem”, agora, com mais frustrações e angústias, e Bernard, desta feita por ser o responsável pelo selvagem, a reclusão na Islândia, onde convivem diversas castas inferiores.
Aldous Huxley magistralmente criou uma distopia onde não existem protagonistas no mundo em que “Cada um pertence a todos”. Assim como Huxley, Drummond descreve, no poema ‘O novo homem”, o homem do futuro: “o homem será feito em laboratório/ será mais perfeito do que no antigório”. Uma criatura que rompe o ciclo natural da reprodução humana como a conhecemos: “Nove meses, eu? / Nem nove minutos”. / Quem já concebeu/ melhores produtos? / A dor não preside/ sua gestação. / Seu nascer elide/ o sonho e a aflição. / Nascerá bonito? / Corpo bem talhado? / Claro: não é mito, / é planificado. / Nele, tudo exato, / medido, bem-posto:/ o justo formato, / o standart do rosto. [...] Perdão: acabou-se/a época dos pais. / Quem comia doce/ já não come mais. /Não chame de filho/este ser diverso/que pisa o ladrilho/ de outro universo. [...] Liberto da herança/de sangue ou de afeto, / desconhece a aliança/de avô com seu neto. / Pai: macromolécula;/ mãe: tubo de ensaio, [...] feliz, por que não? / pois rompeu o nexo/da velha Criação. /

Admirável Mundo Novo é um dos melhores livros do século XX e considerado a quinta maior obra em língua inglesa do século passado. Inquietante e provocante, merece ser lido por todos. Recentemente saiu a notícia de que Steven Spielberg adaptará a obra para a televisão. Então, esperemos por uma superprodução que, quase tenho certeza, fará jus ao livro.