Por Alba Riva Brito de Almeida*

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Introdução

Tomarei como ponto de partida a expressão “volúpia imperialista”, conforme citada pelo autor, na sua infatigável e reincidente insistência, configurando uma situação sintomática da contemporaneidade.

O modo de produção de subjetividades heteróclitas ao modelo patriarcal, ou seja, os modos contemporâneos de situar, na cena coletiva, o específico de cada sintoma, explicita uma realidade de expressões comportamentais e de pensamentos multifacetados, seccionadas em individualidades bem demarcadas. Nesse sentido, constatam-se a emergência de comitês de ética desamarrados de um eixo estruturante central e universal, anteriormente representados, por exemplo, pelo direito e leis reguladoras. O corte e a subversão dos princípios éticos, minimamente traduzidos pelos princípios do respeito e da responsabilidade, proliferam na atualidade de forma voraz, instantânea e imediatista, impondo soluções pragmáticas e de interesse próprio; os comitês de ética particulares funcionam, então, como microcosmos plurais dentro de um corpo social.
Essa composição potencialmente ilimitada de seres tomados na proliferação das forças, de exercício de poder (poder pelo ter, poder pelo saber, poder sobre os objetos consumíveis e consumidos) expõe a face dos sintomas contemporâneos, que se apresentam em duas dimensões: forma e força. Sua face instituída, face-forma, é aquela que se vê aprisionada no circuito de repetição fechada sobre si e sobre as verdades inegociáveis (como exemplo, o domínio do corpo e dos direitos do outro).
Se almejarmos pensar numa saída para este circuito tirânico de exercício de poder, proporia que qualquer trabalho que pretenda incidir neste circuito deva produzir desvios que forcem a repetição a diferir, promovendo a desestabilização destas formas, permitindo, enfim, o aparecimento do plano de forças de produção a partir do qual tal realidade se constituiu e sobre que formações discursivas estão assentadas, procurando reconhecer as fronteiras demarcadas e postulados imperativos de segregação a partir dos signos históricos visíveis (o colonialismo, como exemplo) e invisíveis (como nos ensina Foucault), instituídos e instituintes.
A proposta do autor, me parece, seria a de um retorno ou reevocação aos paradigmas epistemológicos do humanismo, como proposição a uma revisão do lugar social que cada um ocupa, convocando os indivíduos à posição que pode e deve ocupar, como protagonista, uma vez que é ele quem designa um espaço na construção concreta e simbólica das vicissitudes e paradoxos da realidade, relançando, ao plano coletivo, a experiência de superação das barreiras da ruptura dos laços sociais, denunciadas nas recorrentes questões vinculadas à falência dos sentidos da Lei como unidade, da autoridade adequada à democracia nas relações, aos novos contornos atribuídos às transgressões cotidianas, à agressividade banal, violência e demais usufrutos indevidos do outro.

Adolescência, autoridade e subjetivação

Durante muito tempo, a representação da autoridade foi experimentada como excessiva, repressiva, arbitrária e constrangedora. Contudo, nos debates atuais, a falência da autoridade vem se tornando o ícone dos debates psicológicos e sociológicos, aludindo a estas figuras como deficitárias, insuficientes, moles, seja na área educativa, moral, política ou social. A noção de autoridade, outrossim, jamais deixou de ser investigada, ou de ser fonte de queixas e preocupações, principalmente quando o foco destas são os adolescentes e suas vicissitudes.

O rastro da tendência individualista do gozar a qualquer preço, máxima do imperativo capitalista contemporâneo, define a força moral, ética e política em tempos do “direito a ter direitos”,  como formula Hannah Arendt:  valor universal não social – mais que social – pois está acima de qualquer lei ordinária.

A esse respeito, interessa-nos  a problemática da adolescência e dos adolescentes, submetidos e cooptados pela emergência de leis paralelas que ditam o bem que convém, com uma vida contraposta à vida do outro. Empobrecimento e desamparo discursivo, devido à crise nas significações; crise na família, posto que os pais e o laço parental encontram-se em perece transformação; crise no princípio de autoridade, pela constatação da decadência das figuras de autoridades outrora instituídas, as quais se transfiguram em emblemas burlescos inconsistentes, talhado pelo non-sense do direito a cumprir as demandas e imperativos sociais plurais e fragmentados, obedecendo às premissas de não ceder à privação das próprias pulsações e motivações.

Os modos de gozo (aqui entendido no sentido de fruição, usufruto) pulverizam-se nas mais variadas formas de alcance do outro semelhante e do Outro cultural e social, produzindo efeitos sintomáticos no desenvolvimento do adolescente, atiçado pela debilidade do seu desejo e pela descenção dos seus ideais sexuais e laborais, outrora  projetados para o futuro. O aqui e agora, nas suas intensidades e variações psíquicas e cognitivas, é grampeado e insuflado por agentes afirmativos de uma nova conduta (as práticas dos excessos, por exemplo) e de um novo pensar sobre si e sobre a realidade que o cerca. O drama particular experimentado pelo adolescente – que nada mais é do que uma questão, uma demanda – encontra-se subsumido por respostas instantâneas, de mostração dos objetos “adequados” à satisfação. Os chamados gadjets (objetos comuns, descartáveis) se encaixam nas lacunas das demandas dos jovens e mesmo das crianças, comprimindo-os nas molduras onde as imagens de corpos fetichizados, a exposição irrestrita da sexualidade, disputas e rivalidades entre pares compõem um quadro da crise dos referenciais e dos próprios significados e sentidos individuais e grupais.

A realidade dos adolescentes é uma realidade simbólica construída e envolve a ancoragem no Outro enquanto fundador da palavra que faz com que toda comunicação humana remeta ao conjunto da linguagem, o que implica dizer que precisamos (os educadores, principalmente) cuidar para permitir a passagem dos adolescentes ao universo simbólico que o enode de forma produtiva e desembaraçada das cenas cristalizadas que ele, o adulto, formata, a fim de favorecer-lhes a inscrição na temporalidade (doravante, há um antes e um depois).

O Outro-testemunha desse delicado processo adolescente deve reconhecê-lo como em busca de um ideal corporal e comportamental singular e constituinte, separado do cenário perverso de autoridade que alguns adultos (educadores, inclusive), muitas vezes compartilham e “curtem” nas redes sociais, cenário público em que a autoridade contemporânea procura obter consistência para as próprias fantasias, através do olhar embevecido do outro. Ilusão e engodo que geram efeitos desastrosos na formação do adolescente menina ou menino.

Para entrar na vida “ativa” do mundo adulto, o adolescente necessita deslocar-se do plano imagético fixo dos modelos dos gurus, dos pais (dos quais, não obstante, eles se servem, para ir adiante) e dos educadores, mola principal do encontro do sujeito adolescente consigo mesmo e com sua autorização para fazer laço social de forma autônoma, integrando rupturas e novidades.

Desse modo, voltemos a Hannah Arendt, para quem a autoridade se funda sobre a transmissão das experiências e também sobre a duração que “liga, desliga, une, autonomiza”. Para ela, o que está em jogo na autoridade é o que nós chamamos o laço social plantado na diferença e a carência de transmissão tem por consequência o que ela denomina o problema do desligamento, pois, “se vivemos em um presente perpétuo, o que então pode fazer ligação?”, pergunta ela.