Por Gildson Gomes dos Santos*

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Uma homenagem do Sertão nordestino ao filósofo e ativista social Rodrigo Petrônio

 

cobraNaja

Findas as eleições de 2014, no último dia 26 de outubro, imediatamente, duas palavras pouco usadas em nosso cotidiano passaram a enfeitar o discurso político. Falo dos substantivos “conversa” e “diálogo”. Com efeito, na sua primeira fala pública, depois de reeleita, a presidente Dilma Rousseff declarou à Nação que “está disposta ao diálogo”. Por sua vez, o presidente do Congresso Nacional, Renan Calheiros, mandando uma indireta pela imprensa à Dilma, concita sua aliada a “conversar” mais com o Parlamento, visto que “conversa, todos sabem, não tira pedaço”.

A princípio, a não ser a desconfiança generalizada na disposição da presidente reeleita dialogar com a sociedade, outro efeito não se pôde notar em decorrência das reportadas declarações. Escaldado, um morubixaba da oposição fizera questão de sublinhar a dificuldade para “crer que o diálogo proposto [por Dilma] não seja manipulação” [1]. Mas o que importa, fundamentalmente, nessa embromação toda, é a impressão de que tanto a mídia, a opinião pública, quanto os analistas políticos, grosso modo, tomam os verbos conversar e dialogar como sinônimos de mera interlocução entre atores sociais. O objetivo deste ensaio, porém, é negar a existência de tal relação sinonímica entre diálogo e conversa.

Sem dúvida, no uso que deles fazemos diariamente, em particular no modo de pensar hermenêutico ou colonialista[2], dominante na cultura ocidental, os vocábulos diálogo e conversa tangenciam-se em algum ponto, na medida em que expressam formas de comunicação entre duas ou mais pessoas. Mas também não pode haver dúvida de que esse vetusto jeito de ver as coisas oculta o que há de mais fundamental na comunicação humana: as dinâmicas ou os processos linguísticos que tentamos expressar com auxílio dos signos, das palavras, muita vez sem sucesso. E não seriam os vocábulos conversar e dialogar que escapariam a esse fenômeno. Definitivamente, não.

Sem embargo, para evitar o risco de não ser compreendido, antes preciso realizar uma operação epistemológica, dando um salto triplo twist carpado[3] a partir do espaço colonialista, no qual nos encontramos, em regra, para o domínio pós-hermenêutico ou pós-colonialista[4], em cujo espaço de pensamento defendo, primordialmente, que 1) pensamos de acordo com a noção que temos de nós mesmos, enquanto seres vivos; 2) não há resposta adequada para pergunta inadequada, posto que toda pergunta, de alguma maneira, determina a resposta[5]; 3) a interpretação não existe[6]; finalmente, 4) toda conduta é especificada por uma emoção, conforme propõe a biologia maturaniana.[7]

De fato, sustento a existência de uma relação isomórfica necessária entre explicação e experiência, pois a concepção biológica dominante segundo a qual o organismo humano configura um sistema aberto às contingências do meio nos conduz a perguntas diferentes, logo também a respostas, das de quem aceita a configuração do organismo humano como um sistema fechado na sua organização, embora aberto ao fluxo de matéria e energia (sendo autopoiético, portanto)[8]. Por essa fundamental razão, se formulamos uma pergunta desde o domínio pós-colonialista, em cujo espaço acolhemos a autopoiese molecular como premissa básica, jamais poderei escutar uma resposta adequada a partir do domínio colonialista, ou vice-versa, posto que cada domínio é validado por condições epistemológicas diferentes.

Assim, a título propedêutico, quando nos reportarmos às palavras diálogo e conversa, no espaço colonialista, tomamo-las como parte de um sistema de signos que supostamente representa algo externo ao observador. Por outro lado, quando fazemos referência às mesmas palavras desde o domínio pós-colonialista, já estaremos indicando processos, dinâmicas vitais, que emergem na operação de distinção do observador; e não apenas nos referimos a símbolos, que significariam algo, independentemente de o observador traer a la mano, como diriam Humberto Maturana e Varela[9]. Nesse sentido, a prática que chamamos de interpretação não seria senão um truque conveniente ao pensamento hermenêutico, sendo descabida, portanto, no espaço pós-colonialista, em que a realidade é constituída pelo observador, logo imune à hermenêutica, que supõe uma realidade preexistente ao observador, dada ou construída.

No domínio pós-colonialista do pensar, no qual toda interpretação será inútil, vale repetir, o que o torna, então, pós-hermenêutico, as palavras diálogo e conversa não induzem sinônimos, porque são usadas para indicar coordenações de condutas diferentes e contraditórias. Para um ser pensante pós-colonialista, conversar e dialogar equivale a misturar água e óleo: a heterogeneidade sempre terá lugar, visto que as emoções, enquanto disposições corporais dinâmicas, especificam cada coordenação de ação ou omissão de forma diversa. Na realidade, na conduta de conversar estará presente a emoção do acolhimento, do respeito mútuo, ao passo que na dinâmica da ação de dialogar aparecerá o incontrolável desejo de obrigar, vencer ou convencer o interlocutor.

A despeito do que imagina o pensamento dominante, a pessoa que se apresenta para conversar[10] o faz guiada pela emoção da reciprocidade respeitosa; animada pelo espírito da colaboração entre diferentes. Numa situação de conversação, a condição para que haja conversa é a de que os interlocutores se respeitem mutuamente em torno de um projeto comum, um tendo o outro como legítimo outro na coexistência. Nessa relação de conversação, quando não há convergência de opiniões, ou ampliamos o âmbito de reflexão para que todos os conceitos nele se encaixem, ou cada interlocutor guardará consigo suas certezas petrificadas, sem que com isso implique na desastrada produção de pessoas frustradas, vencedoras ou derrotadas, tal como sói acontecer no espaço colonialista.

Na origem, a palavra conversar (lat. con+versare) já fazia referência à ação de “dar voltas juntos”, “dançar juntos”, envolvendo, portanto, acolhimento de uma pessoa por outra, no espontâneo prazer de estarem juntas colaborando entre si. Bem diferente do comportamento de dialogar (gr. dia+logos), que, etimologicamente, quer dizer “através da razão”. Não quero dizer com isso, porém, que no ato de conversar não haja racionalidade; nele, via de regra, a razão é bem-vinda e aparece com a missão de justificar nossas escolhas, pois não existe argumento racional desapartado de fundamento emocional. É isso mesmo: todo argumento sempre resultará de uma escolha; ora, quando escolhemos a premissa fundamental em que se esteiam nossos argumentos, estamos no plano das emoções, das preferências, das ganas, e não no da metódica racionalidade.

Efetivamente, no ato de dialogar ocorre situação distinta. Nele se privilegia a razão, a despeito da emoção que o especifica. Mas nessa operação epistemológica reside um problema insuperável, visto que não existe ação ou omissão que não seja determinada por uma emoção, ainda que o pensamento hermenêutico tente esconder esse busílis epistemológico, para conferir vestes de objetividade a seu modo de argumentar. Trata-se, evidentemente, de um truque, que só faz sentido no domínio colonialista do pensar, em cujo campo o saber cobra obediência, e as divergências de opinião, por via de regra, jamais se dissolvem espontaneamente, tendo por vezes que ser superadas por critérios de poder ou de autoridade.

No domínio colonialista, a vantagem estará sempre com quem tem o poder de resolver, de decidir: o líder ou a autoridade (econômica, política, judicial, paterna, governamental, religiosa). Quando isso eventualmente não acontece, o será por conta da tolerância, que aparece para mascarar a emoção que especifica o argumento da potestade ou da liderança. Ocorre que a tolerância acaba por se revelar apenas como mais um daqueles truques geniais inventados pelo pensamento hegemônico, pois é evidente que “somente tolera quem pode”. Tolerância de fraco é mesmo motivo de galhofa. Na verdade, quem diz “eu tolero”, apenas retarda o momento de trucidar o outro, porque tolerância não induz respeito. Este se funda na espontaneidade do acolhimento amoroso, pelo simples prazer de conviver com o outro, ainda que se pense diferente, aquela se apoia na potestade da autoridade, que cobra obediência.

Resumidamente, podemos afirmar que quem argumenta “através da razão” ou dialoga sempre terá a pretensão de obrigar, vencer ou convencer o interlocutor. É que, na realidade, a pessoa que invoca a racionalidade acredita que seu argumento se apoia num dado objetivo, externo a si. Logo, se afirmamos algo com base numa referência externa, tal afirmação será supostamente correta, devendo então ser imune a contestação. Assim sendo, toda pessoa que discorda de uma afirmação racional será tonta, louca ou incapaz de enxergar um palmo além do nariz, pois o que dizemos expressa a verdade por se apoiar na mais límpida objetividade. Nessa maneira de pensar, o observador é absolutamente separado do objeto, segundo propõe a velha teoria do conhecimento, rechaçada pelo biólogo chileno Humberto Maturana[11].

Nessa linha colonialista do diálogo, então, se não aceitamos o argumento, supostamente racional e objetivo, restará a seu autor o apelo à intimidação pelos meios que tiver a seu alcance ou até mesmo ao uso da força física para vencer a resistência. Outra tática é a do convencimento, quando o recurso da violência física não for conveniente. Sucede que convencer, segundo Ximena Dávila “significa vencer al otro. […]. A veces escuchamos esperando que el otro valide lo que decimos, porque creemos tener la razón, […].”[12] Nesse sentido podemos afirmar, pois, que diálogo, sim, arranca pedaço, porque, efetivamente, se converte em manipulação, ao contrário da conversação, cuja prática sempre será edificante, ainda que Dilma, Renan e seus opositores ignorem essa distinção.


* Aspirante a doutor da Faculdade de Direito da Universidade Nacional de Buenos Aires (ARG.). Pós-graduado em Direito Público pela UNIFACS (BA). Graduado em Direito pela UNIFMU (SP). Professor de Direito e Teoria Política da Faculdade Dom Luiz de Orleans e Bragança (BA). Procurador-Geral do Município e ex-presidente do Conselho Municipal de Educação de Ribeira do Pombal (BA). Sócio fundador da firma G. Gomes dos Santos Advogados Associados (www.blogdogomes.com.br).

[1] Em ensaio publicado na Gazeta do Povo (Londrina/PR), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso questiona se o que a presidente reeleita Dilma Rousseff propõe não seria, no fundo, manipulação, ao invés de é “diálogo”. Disponível em: <http://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/>. Acesso em 2 nov. 2014.

[2] Por mais que se tente obscurecer, o fato é que, enquanto coerência operacional do patriarcalismo, o sistema colonialista moderno, segue atuante e mais vivo que nunca. Não talvez na sua forma primitiva de exploração econômica, mas no campo das ideias, pois vivenciamos, ainda hoje, o tempo da colonização político-cultural. Cf. Naim (NAIM, Moisés. Colonialismo, DSK e o FMI. El País. Madrid, 22 mai. 2011. Disponível: <http://www.elpais.com/articulo/internacional/>. Acesso em: 29/05/2011). Com esta visão parece compartilhar também o filósofo espanhol Raimon Panikkar (PANIKKAR, Raimon. Entrevistas. Naturaleza: Raimon Panikkar. Agenda Viva nº 23 [en línea]. Madrid:  Fundación Félix Rodríguez de la Fuente, 21 marzo 2011. “Raimon Panikkar: ‘Todo está ligado: la Tierra está viva, la materia está viva’”. Entrevista concedida a Jordi Pigem. Disponível em: <http://www.agendaviva.com>. Acesso em: 16/06/2012, p. 11) para quem: “La esencia del colonialismo no es la explotación sino el monoculturalismo, la creencia de que una sola cultura puede marcar la pauta para solucionar los problemas humanos”. Boaventura de Sousa Santos (SANTOS, Boaventura de Sousa. Do pós-moderno ao pós-colonial. E para Além de um e outro. Conferência de Abertura do VIII Congresso Luso-afro-brasileiro de Ciências Sociais, realizado em Coimbra, de 16 a 18 set. 2004.  Disponível em: <http://www.ces.uc.pt>. Acesso em 15/11/2010, p. 8) também pondera que “o fim do colonialismo enquanto relação política não acarretou o fim do colonialismo enquanto relação social, enquanto mentalidade e forma de sociabilidade autoritária e discriminatória”.

[3] Paráfrase exagerada do duplo twist carpado de Daiane dos Santos.

[4] Mais adiante esclarecerei a extensão semântica desses termos. Por ora, cumpre-me alertar apenas que essa operação não tem qualquer relação com a metáfora “out of the box”, cuja proposta sugere que sejamos criativos, buscando soluções “fora da caixa” ou do domínio em que estamos habituados a pensar. Não. Essa ideia nos induz ao equívoco de que só existe um modo de pensar (uma caixa), porque seria possível pensar fora dele, mas estaríamos fadados a retornar à origem, isto é, à velha caixa de pensamento. Pelo contrário, quando falo em saltar de um domínio de pensamento para outro, na verdade, afirmo a existência de outro modo de pensar: o pós-colonialista (pós-hermenêutico) , diferente daquele que estamos habituado a cultivar: o colonialista (hermenêutico). O que proponho, então, não é pensar “fora da caixa”, para depois a ela retornar. Mas, sim, pensar em outra caixa (“in other box”) diferente.

[5] Segundo o cibernético Von Foerster (VON FOERSTER, H. On Constructing a Reality. Principia Cybernetica Library, 1984, pp. 41-61.  Originally published in Environmental Design Research, Vol. 2, F. E., Preiser (ed.), Dowden, Hutchinson & Ross, Stroudberg, 1973, pp. 35-46.  Disponível em: <http://pespmc1.vub.ac.be/>. Acesso em: 9 jun. 2013): “The way in which a question is asked determines the way in which an answer may be found” (A forma em que uma pergunta é feita determina a forma em que se pode encontrar a resposta).

[6] Cf. nosso Pensamento pós-colonialista: uma forma humanista de pensar a realidade, in www.blogdogomes.com.br.

[7] MATURANA, Humberto R. Emociones y lenguaje en educación y política. 10ª ed.; Santiago: Ed. Dolmen Ensayo, 2001a. Disponível em: <http://www.franjamoradapsico.com.ar>. Acesso em 12/06/2010.

[8] MATURANA, Humberto R. (1970). Biology of cognition. Illinois: Biological Computer Laboratory (BCL Report 9.0), University of Illinois, Urbana IL, 1970. 58p. Disponível em: <http://www.enolagaia.com>. Acesso em 24 mar. 2012..

[9] MATURANA, Humberto; VARELA, Francisco.  (1984). El árbol del conocimiento: las bases biológicas del entendimiento humano. Buenos Aires: Lumen, 2003a, 172 p.

[10] Chamo de conversação, esclarece Humberto Maturana (In Cognição, ciência e vida cotidiana. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2001, p. 132), “nossa operação nesse fluxo entrelaçado de coordenações consensuais de linguajear e emocionear e chamo de conversações as diferentes redes de coorde­nações entrelaçadas e consensuais de linguajear e emocionear que geramos ao vivermos juntos como seres hu­manos”.

[11] Cf. nota 8.

[12] DÁVILA, Ximena Y.; MATURANA, Humberto R. Habitar humano: en seis ensayos de biología-cultural. Santiago: J. C. SÁEZ, 2008, 394 p.